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23 de setembro de 2011

36.

A pipa laranja.

O céu acima da minha cabeça estava inundado em núvens, mas a vista de longe era limpa. O dia estava lilás e frio e o mar era de um verde escuro, escondendo tudo o que nele vivia.
Não haveria ninguém na praia aquela tarde não fossem alguns garotos que corriam pela areia empinando uma pipa. Logo passaram por mim, sorridentes e radiantes como se nada mais importasse a não ser o pequeno papel colorido dançando por
entre as nuvens que avisavam sobre a chuva.
Eu continuava estática em frente ao oceano, o vento levando meus cabelos para longe, dançando com a pipa e as ondas do mar.
Os meus olhos se fecharam e o meu sorriso se abriu. Eu ouvia apenas o barulho do mar e da risada das crianças que tentavam, no céu escuro daquela tarde, desenhar lindos sonhos com uma pipa laranja.

31 de julho de 2011

30.

A superfície.

A vida é como o mar, e você é como uma criança aprendendo a boiar, tentando se manter na superfície, sobre-viver. Algumas coisas — sentimentos, pessoas, momentos — boiam com você, muitos afundam e ficam lá na memória. Às vezes até você se afunda na vida, depois, com muito esforço, volta para a superfície sem precisar de ajuda, fora tudo uma questão de equilíbrio, você foi a causa e a solução. Outrora você afunda porque algumas crianças estão se movimentando na água, fazendo ela cair nos teus olhos, tirando a tua paz, e então você se afasta. Mas quero chegar ao ponto em que a vida se transforma e de repente você está sobre a areia movediça — não mais o mar —, ela te puxa pra baixo, ela te suga, e é quando você não pode se ajudar, não pode apenas achar o equilíbrio ou se afastar. Você precisa que te ajudem a voltar para a superfície, mas nem sempre existe alguém disposto a te dar a mão, alguns preferem apenas te ver afundando, e se não quiser ser tragado pela vida, meu caro, torça para ter um galho por perto.

18 de junho de 2011

26.

A garrafa com um sonho dentro.

Na beirada do rio ela estava, era uma manhã ensolarada e tudo tinha ficado meio amarelado, se sentou e colocou sobre as pernas um pequeno caderno, com cuidado passou seus cabelos para o lado esquerdo e suspendeu suas pernas para fazer de apoio. Ao seu lado estava uma garrava transparente e pequena com uma rolha que a tampava. Pegou o lápis e depois de alguns segundos olhando fixamente pro grande rio azul, explorando cada parte que podia ser vista, já sabia o que escrever. E assim pôs no papel com linhas azuis:

Te espero. E mesmo que me canse, mesmo que eu queira acabar com a esperança que carrego. Te espero, te espero, mesmo sem querer.

E você deve estar se perguntando: Te espero? Espera quem? — Ela esperava muitas coisas: um amor, amigos verdadeiros, felicidade, sonhos realizados, sorrisos, aquela carta era para muitos, porém nenhum destinatário a receberia. A garota enrolou o papel com cuidado, o colocou dentro da garrafa e tampou-a novamente com a rolha; ergueu o objeto até a atura do rosto e olhou a carta lá dentro — sorriu — não sabia aonde ela chegaria, mas sabia que, certamente, iria à algum lugar. E jogou a garrafa no rio, deixou-a a mercê dos ventos. E, sem ter saído do lugar, ficou olhando ela ir pra longe.

Abraçou as pernas dobradas e olhou fixamente pro grande rio azul, explorando cada parte que podia ser vista, já sabia onde ir, iria de volta para vida, para casa, para o seu mundo real e não-belo. E lá estava ela, a mercê dos ventos, como a garrafa jogada no rio, lá estava ela, sem saber aonde chegaria, mas sabendo que, certamente, iria à algum lugar.