29 de setembro de 2017

98.

Só, capacidade de estar.

Estou cansada da minha imensa habilidade de estar só.
De me cuidar bem, de seguir os dias, cumprir os compromissos, comer a comida, não cair da corda bamba. Sobreviver a cada semana in-sobre-vivivel.
Tenho saudades de me sentir inteira, de ser capaz de ex-istir. Me projetar no mundo.
Ser aí.
Eu? Eu sou? Eu estou só.
Estou cansada de ser alguém que apenas reage às circunstâncias externas. E que fica inventando poema com frases de textos acadêmicos. Procurando alimento pra existência, jogando as evidências fora.
Eu queria ter a capacidade
e a possibilidade
de ser continuamente
infinitamente

Só..

16 de março de 2016

97.

Inquirição poética


O que estamos fazendo? Você faz alguma ideia? Pra onde estamos indo, a troco de que? Você ao menos sabe? Essa dança, esse jogo, essas regras, qual o sentido? Quem me colocou aqui? Como eu me coloquei aqui? É muita coisa, um mundo inteiro pra um corpo tão pequeno, tão frágil, uma força tão minúscula. Não me refiro a mim, mas a nós. Esse corpo de pétala de flor, de casca de folha, tentando segurar uma ventania, uma tempestade, uma pedra. Ele morre, sabia? Você faz alguma ideia de pra onde vamos? Depois que as luzes apagam, a gente acende as velas, junta a família e conta uma história ou vamos pro paraíso? Depois que o corpo morre, nós viramos terra? Paramos de questionar o mistério e nos tornamos parte dele?

Olho pra dentro. O que é isso que fizeram de mim? O que é isso que me tornei? Eu tenho controle, escolha? Como eu mudo? E se eu cortar e pintar o cabelo, fazer tatuagem das minhas bandeiras, dar um grito bem alto.. será que isso move as ondas do mar que somos? E se eu explodir, uma explosão insuportavelmente silenciosa, será que eu me liberto em voo de borboleta? 

4 de dezembro de 2015

96.

Assombros


Te fiz em poema
Projetei em você as flores e passarinhos
O mistério e a morada
Tudo o que eu precisava para me sentir verso
E rima

Peguei fantasma alheio
E batizei como se fosse filho
De uma grande história
De um grande reino

Era mentira
Sempre foi
e eu sabia

Mas já se apagam da minha memória
Os rostos dos heróis covardes
que moravam em meus devaneios
Bem nítido, porém, permanecem
As imagens dos monstros
que enfrentei
Sem armadura
E sem fé divina

De todos os assombros
Talvez o maior
Seja essa sensação
de que nada disso importa
de que ainda sou a mesma
de que me toma o corpo, essa fraqueza 

De todos os monstros
Talvez o maior
Seja esse verme
Que me habita a alma
E come as paredes

27 de novembro de 2015

95.

A segunda Grande Explosão


Explode mundo
Vira silêncio
Desintegra em pedaços minúsculos de terra,
de gente, de ódio, de dor
Vaga tranquilo
em pequenas partículas sem gravidade
Feito um vulcão
há muito tempo morto

As estrelas guardarão tua história
em segredo
E jamais nenhuma outra vida
conceberá a ideia da tua estupidez

18 de outubro de 2015

94.

Chaminé 


À noite, bem no escuro
- uma luz tímida vinda do poste através da janela -
Quando ninguém te enxergaria
Queria tanto sua presença

Você sempre aparece
Como um amigo imaginário
No oculto
No sonho
Nos lugares escondidos
onde só eu posso te ver
Nas fugas
Nos medos

Como um sussurro atrás do ouvido
Meio engraçado e zombeteiro
Outrora sério, quase cinza
Me canta um poema triste
Faz uma careta
E vai embora

Feito um fantasma com febre
Moribundo
Interessado em saber
Se existe morte
Após a vida

2 de outubro de 2015

93

Tesseract

Não sei mais dizer
assim e pronto
sem fazer
as palavras dançarem

Tenho uma ideia
mas apenas contá-la
é simples demais
para o poema

Ele possui uma
quarta dimensão
que se chama flor

transformar a ideia em poema
é não só contá-la
mas além disso
(e ao mesmo tempo)
é plantar
regar
e nascer

1 de outubro de 2015

92.

Sobre os amores-totem

Lembrei-me da iconoclastia
Livrei-me dos toténs que habitavam meu altar de flores
Joguei-os no chão
Os fiz em padaços
Subi os degrais do altar em glória
Dancei a música que só eu ouvia
Cumpri a lei e
Jamais adorei nenhum outro deus além de mim