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19 de outubro de 2013

77.


você está inundada, menina
você se engole pra não se vomitar
você chama isso de controle

você perdeu o controle, menina
por algum lugar há de sair
toda essa merda que você não quer mostrar
porque não é bonita

você está confusa, menina
quando você engole pedaços de si mesma
leva junto palavras que caracterizam
o que você não quer admitir que há aí dentro
e quando um pouco disso escapa
você não sabe nomear

tem mais parte tua escondida no baú
que sendo usada
você tá toda guardada
tentando sair

e esse barulho é pra não te deixar esquecer
é tua fraqueza querendo escapar
teu monstro
preso na barriga
grunhindo

abra o baú, menina
ele só quer um abraço

75.

MINHA VOLTA

Volta e meia descubro que o tempo passa,
que o passado e o futuro deixam de existir
quando passam a existir

Volta e meia sinto como se o presente
fosse o passado, pro qual eu tentei e consegui voltar
de tanta saudade
mas a saudade não veio junto
e eu desperdiço o tempo mais uma vez

Volta e meia descubro que a gente tenta enfeitar
embelezar o que é natural e simples
maquiar a vida
dando sentidos que não colam direito
como adesivo velho
E no fundo
a vida não aceita adesivo algum
nem sentido algum

A vida é uma superfície
estendida no meio do nada
ou do tudo
com um punhado de seres
andando
tentando significar seu andar
e falhando

Volta e meia eu vou embora
e em meia volta eu volto
e escrevo um mundo

19 de outubro de 2012

65.


A caneta estourou — estragando o jeans da garota e inundando-o de rosa escuro. Dentro da mancha se via até algumas letras em destaque — não se sabe como surgiram no furor do acaso – quase irreconhecíveis, mas que, ainda que letras fossem, não pareciam formar palavra alguma. E foram esquecidas.
Respirou fundo — havia partículas de coragem no ar desse dia — e estourou, sim, pois há muito estava ali, no bolso da frente: inútil, esquecida, assistindo outras canetas saírem e voltarem revigoradas, úteis! "Trabalho feito", dizia uma sorridente. "Histórias para contar", regozijava a outra reluzente.
Mas um dia — Há! Um dia... "Chega!" gritou a caneta. E estourou — pôs um basta! Já não mais suportava.
E então foi finalmente requisitada, era ela a caneta pela qual a garota procurava!
Saindo do bolso escuro reconheceu o cenário que antes tanto visitava e foi sendo pela garota movida para um canto da sala.
Sorriu de alegria, revigorada, gritou para o mundo sobre o quanto esperara!
Mas foi solta e num instante, subitamente, no lixeiro ela estava.
***
Há quem diga que havia um F na mancha, um I abstrato e um M meio desengonçado.
Pobre caneta e seu fim irremediável.
***
Mas olhe só
a caneta que sou!
Eu preciso sair também,
vou estourar, você sabe...
A mente, o coração, a alma.
E derramar sobre o sofá da sala
toda tristeza acumulada,
todos os medos crescentes
e as lágrimas poupadas.

Mas espero,
como nunca esperei algo,
que uma palavra bem bonita seja formada.
E se não for,
ainda assim, tudo bem,
terei um instante inteiro
para gritar ao mundo sobre o quanto esperei.

1 de junho de 2012

XX.

Anti-vocábulo.

Dragões, castelos, flores no cabelo, vestido.
Sorriso, braços abertos, pássaros, flores, rodopio.
Vento no rosto, olhos fechados.
Beleza.
Um sentir sem tamanho.
Sonho.

Olhos abertos: realidade.
Pessoas, casas, nada no cabelo, vestido amassado.
Risada exagerada, mãos cruzadas, carros, flores na floricultura, passos largos.
Anti-beleza. Amargura.
Um fingir-estar-bem sem tamanho.
E a hora de dormir que não chega.
E a hora de sonhar que não vem.

Tudo bem... Apenas feche os olhos.
Existe um mundo novo que começa no que não se pode ver
e termina no que se pode imaginar, e assim sendo: é infinito.

6 de maio de 2011

06.

Miragens.

Eu disse "tchau", mas era como um adeus, porque eu estava cansada de ter que sempre destruir os planos que fazia sobre nós. E não que você tivesse culpa, na verdade era eu, sempre eu, que fazia tudo parecer um conto de fadas antes mesmo de acontecer. Era sempre eu e a minha necessidade de achar alguém que colava a imagem do garoto certo no rosto do primeiro simpático que aparecia.
Mas estou cansada, claro, estou cansada, sempre cansada, mas de que adianta? Amanhã cometerei o mesmo erro.
À noite a verdade sempre vem à tona, aquilo lá longe não é um príncipe, muito menos um sapo, é só a sua imaginação, querida, só.