17 de agosto de 2015

91.

MORADA


procurei aflita
algum pedaço
de coisa qualquer
que eu conhecesse

algo que olhasse pra mim
e que eu entendesse
e me entendesse de volta
p'reu poder respirar
tranquila
e não ter medo

mas as poucas e raras coisas
que me eram familiares
estavam perdidas
atrás de grandes móveis
e poeiras de problemas

*

lembrei então do poema
corri pra barra da sua saia
ouvi e cantei canções de sabedoria
criei eu mesma um rosto
que fosse "casa"
feito de palavras

soprei os versos pelo nariz
ele viveu

o rosto tinha a minha cara
o meu sentimento
e eu já não era medo

31 de maio de 2015

90.

Floricidade

Há um monstro
na barriga do mundo
que geme
e ruge

Há um monstro
na barriga do mundo
que tem deixado
as pessoas doentes

Tem comido a felicidade,
toda e qualquer felicidade
dos campos
e já não há mais flores

Pobres de nós
que nem percebemos a maior pandemia
que é esse vírus
de não ter paz
de não ter dança

E nessa anti-dança
a mente adoece
e também os corpos já não suportam
o peso do mundo

21 de maio de 2015

89.

Flor rindo


Tem me batido uma vontade de ser ritmo
ser água nas pedras
ser terra
ser formiga
ser espírito
dançante
e dar no pé
que tem no fundo lá de casa
pé de jambo
no chão rosa de flor
ser criança
ser gerúndio
e gerânio

9 de abril de 2015

88.

Sete dias 

Em seis dias deus criou o mundo, no sétimo descansou. Em seis dias criamos um mundo, que no sétimo desmoronou. Deus não existe, existimos nós como pensávamos?

Eu, que já não cria Nele, acreditei que você também não era real, nem o eramos nós fora do mundo que criamos, muito pequeno para ser bastante. Mas você voa fácil, passarinho que não se prende a dores, pro qual voar nunca é sofrer; se doar, no entanto, pra essas histórias loucas e mirabolantes de cinema independente, não vale a pena.

E você voa, então, como um deus que não precisa de discípulos, de fieis, só mesmo das asas que o leve pra longe. Fico eu, sem teogonia, feito José. Sem fuga que não seja suposta. Sem céu nem paraíso, sem cuidado nem cura de todas as feridas. Não sei se por pecado e desmerecimento ou se porque nada disso existe.

27 de janeiro de 2015

87.

Acaba no fim do poema


Hoje te deixo ir, amigo
Hoje, quando digo
Sem medo
Que te amo muito,
Te deixo ir
Já não dói

Você é mais bonito quando voa de mim
E eu sou mais bonita quando voo pra mim
Sorria, amigo
E toma um abraço de memória
Tão grande quanto tudo que foi
E que não foi
(porque o que não foi também existiu
em ausência e concretude)

É quando te deixo habitar tranquilo
Que você evapora
E eu vejo mais claro o caminho que é só meu
E que é sem você
E que tudo bem

Você conta?
Conto eu, então:
Quatro
Três
Dois
Um

29 de dezembro de 2014

86.

Àrvores de Natal


Gilda descobriu-se viva. Aquela que muito incomodava, tinha poucos amigos e era pouco querida. Assim também o era Ana (seu milagre de natal), que quase nenhum incomodo causava e cuja existência poucas vezes era sentida. Tinha os braços finos, as pernas finas e sonhos e desejos grossos como grandes e velhas árvores, mas isso não era visível. Só quem se aproximava e ouvia o barulho das folhas ficava sabendo, lhe oferecia um abraço e sentava embaixo, na sombra – e dormia um pouco, e sonhava (acho até que era um pé de manga espada). Árvore visível era Gilda, seu cabelo de copa, de folhas de sabedoria, de grandeza; sua aparente força indestrutível e armadura, dura, escondia que ela dava frutos doces, os mais doces e vermelhos, mas frágeis ao cair no chão, desmanchando-se ao mínimo toque que não fosse de flor ou de passarinho.

Em uma dessas ocasiões de poucos frutos nos galhos e muitos desmanchados no chão, Ana questionou-lhe à vida (como último sopro, grito de socorro de árvore que também morria), chamou-lhe de volta para sua existência frondosa – há muito esquecera de si e imersa em feridas: murchava.

Dividiram a seiva do Natal e as dores do ano, colaram uns galhos perdidos, cortaram outros podres. Por fim, viraram pinheiro, usaram os enfeites velhos e empoeirados e a estrela, meio tímida, brilhou. 
Não esperaram o Papai Noel, que Papai Noel não existe. 
Àrvores de Natal, sim.
E brilham.

23 de dezembro de 2014

85.


o corpo que não cai


dentro do corpo
um coração

cheio de dores completas
de belezas perdidas
e fantasmas secos
sem plasma
sem lençol
e sem correntes


um verme

rastejando pelas paredes
um verme besta
burro
corrói as certezas
as incertezas
e vai empurrando a vida
deixando ir
sem nem saber pra onde


uma borboleta

inquieta e perdida
voando presa
dentro do corpo:

e se as asas caem
e se vier casulo
e depois lagarta?
e se erro tudo
e o tempo passa
e vejo o fim
antes do começo?


uma flor

se abre e vai mostrando
que o solo é fértil
basta plantar
que ainda há mesmo muita vida



a borboleta pousa
e sonha