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24 de julho de 2012

62.

Debussy, Clair de lune by Claude Debussy on Grooveshark
Sublimação.

O corpo desajeitado, a cabeça apoiada na mão e os olhos entreabertos era seu sinal de desistência.
A mente estava cansada de trabalhar pra fazer tudo parecer menos ridículo e rude, já era claro demais pra fingir-se não ver, já era tarde demais pra fingir-se não crer no que era real e abraçar um sonho, um devaneio, uma linda mentira em veludo.
E nenhuma canção era forte o bastante pra quebrar o gosto do real-imutável e repugnante, nenhuma palavra, nenhuma lanterna na escuridão, nenhum silêncio.
E doía ter que aceitar que talvez a vida seria sempre aquilo, mais nada. Aquele barulho indesejado, aquelas palavras pesadas, aquela multidão indo pra lugar nenhum pensando estar indo para algum lugar.
***
— Dizem que eu deveria ter nascido em uma estrela.
— E o que você faria morando em uma estrela? É um lugar pequeno, só caberia você.
— Eu dançaria ao som de um prelúdio, feito a bailarina da caixinha de música.
— Chopin?
— Debussy.
— E a vida seria apenas isso?
— Ahh... E só isso sendo seria tão mais do que o que tenho nas mãos.

30 de março de 2012

57.

Conhecimento.

Enquanto apresentava sua imensa biblioteca para o neto de sete anos, ele disse:
— Você precisa ler muito. Graças aos livros hoje eu sei quem foi Mozart, Chaplin, Chopin, Drummond, Gandhi e muitos outros seres memoráveis!
O garoto olhou confuso e perguntou:
— E nós, vô?
...
Quem somos nós?
(BASEADO EM UMA TIRINHA)

6 de junho de 2011

15.

O caminho e o destino.

Sentou-se em um banco estreito, ao lado do velho homem que sempre aparecia pelas bordas da vida vazia. Com seu charuto na boca, tinha cor morena, cabelos grisalhos e voz serena. Aparentava ser sábio, e as rugas na face denunciavam sua longa experiência.

— Céus, como estou cansada.
— Cansada de que, querida?
— De andar tanto e não encontrar coisa alguma, senhor.
— Bem sei, bem sei. — Disse afirmando com a cabeça. Com seu charuto por entre os dedos, pintava no rosto um sorriso quase invisível.
— Estou com fome.
— Fome de que, querida?
— De sonhos realizados, eu acho.
— Bem sei, bem sei. — Disse o velho tirando o charuto da boca, deixando a fumaça sair. E continuou:
— A fome morre no corpo. Os sonhos morrem na alma.
— A fome morre no corpo. Os sonhos morrem na alma. — Ela repetiu.
— Sabe, senhor, o pior é não saber quando essa jornada cansativa vai acabar.
— Talvez você não deva nem queira saber, minha jovem.
— Pois quero, e até me atrevo a dizer que devo!
O velho sorriu.
— E se a vida for menos do que você pensa? E se os teus sonhos forem como névoa prestes a se dissipar?
— Não suportarei, eu suponho.
— Pois então, se alimente dos sonhos enquanto eles podem matar a tua sede, enquanto você ainda tem fé o bastante pra criar um destino que ainda nem veio.
Ela suspirou e disse:
— Devo continuar, senhor?
— Sempre, querida. Sempre.

20 de maio de 2011

08.

O caminho e o destino.

Então a garota, já cansada de andar contra o vento, viu um senhor com um charuto na boca, sentado em um banco às margens da vida. Ela resolveu se sentar ao lado dele, a fim de descançar um pouco e saber se ele poderia responder uma de suas inúmeras perguntas sobre aquela jornada.

— Ei, senhor, essa vida cheia de compromissos, obrigações e esforço? Essa vida, aonde nos leva?
— Ao fim, minha jovem.
— E o que tem lá, senhor?
— No fim?
— Sim.
— Não há nada, querida. Não há nada.

Ela meneou a cabeça, pôs um olhar triste no rosto e voltou a andar. Não queria, não havia razão para continuar, mas ela tinha medo de parar, então andava, quem sabe mais à frente encontrasse algumas mentiras confortáveis, porque de nada lhe serviria a verdade nua, crua e cruel, de nada lhe serviria, pois não pararia de caminhar. Embora sem ânimo ela ainda acreditava — mesmo que bem pouco, quase inerte — que a vida reservava algo bom no final.