10 de janeiro de 2014

78.

Sobre o texto Sobre ruas e calendários. Sugiro que leia-o antes de continuar.



Há alguns dias atrás me veio inspiração para continuar a história da personagem Ameli e seu autor. Entretanto, o futuro que revelei a ele sobre a menina era muito triste. Consistia em contar como foi a vida de Ameli depois de ter escolhido qual rua seguir e como, apesar de ter escolhido a rua L'Amar, ela não havia escapado da morte, pelo contrário, havia dado início à lenta morte que era viver na dureza e feiura do real.

A primeira imagem que revelei ao escritor de Ameli foi dela com setenta anos, sentada numa poltrona floral encardida, numa casa empoeirada, óculos empoeirados na mesa, pele enrugada, veias e xícaras com asas quebradas. Depois, todas essas coisas inertes que velavam o corpo de Ameli contaram ao escritor como havia sido a vida dela depois do dia da grande epifania que tivera.

Escrevi. E, na metade da história, resolvi parar por um tempo. Parecia que ela ia ser bem grande e eu não teria condições de escrevê-la toda de uma só vez, em um só dia. Porém, depois de voltar ao que estava fazendo, senti-me muito pesada e triste; a história era poética e bonita em sua melancolia, mas não era o que eu queria para Ameli, mais que isso: não era o que eu queria para mim.

Voltei à página onde havia escrito boa parte da história e comecei a apagá-la. Apaguei a tristeza de Ameli, a aspereza da vida, as pessoas sendo más, o futuro decepcionando, seus sonhos morrendo, a casa empoeirada e velha. Apaguei todos. Nunca existiram, portanto. E no lugar de toda a tristeza escrevi somente uma frase:


Ameli foi muito feliz.


E foi.







O.B.S.: O objetivo desse texto não é dar um final a Ameli, mas contar sobre minha tentativa de fazê-lo. Quero que percebam que não optei por continuar a história de Ameli - a qual ninguém sabe como é nem por onde anda -, mas exercer o poder que tenho como escritora de ficção e deixar de lado a visão pessimista que eu pretendia seguir. Esse texto se rebela e diz: o que aconteceu de verdade pouco importa, até porque não existe verdade nessa história senão o que acreditarmos sê-la.

19 de outubro de 2013

77.


você está inundada, menina
você se engole pra não se vomitar
você chama isso de controle

você perdeu o controle, menina
por algum lugar há de sair
toda essa merda que você não quer mostrar
porque não é bonita

você está confusa, menina
quando você engole pedaços de si mesma
leva junto palavras que caracterizam
o que você não quer admitir que há aí dentro
e quando um pouco disso escapa
você não sabe nomear

tem mais parte tua escondida no baú
que sendo usada
você tá toda guardada
tentando sair

e esse barulho é pra não te deixar esquecer
é tua fraqueza querendo escapar
teu monstro
preso na barriga
grunhindo

abra o baú, menina
ele só quer um abraço

76.

NA SAÍDA

Márcia era recepcionista de uma clínica de psicoterapia. Um dos pequenos prazeres de sua vida era olhar a expressão das pessoas depois de saírem da consulta. Havia essa garota, em específico, que esquecia-se que havia chorado durante boa parte da terapia e quando saia sempre se despedia das pessoas com um sorriso no rosto, porém com os olhos inchados e vermelhos. Márcia se sentia importante ao imaginar que era uma das poucas pessoas que presenciavam aquele raro momento em que o que a menina sentia e o que ela queria aparentar sentir coexistiam estampados em seu rosto, sem que ela nem percebesse. Costumava imaginar, e supor, que a menina sentia tanto que mal conseguia fazer tudo caber ali dentro sem derramar a
                                                     
                                                          tris
                                                                    te
                                                                            za
    
na 
saída.

75.

MINHA VOLTA

Volta e meia descubro que o tempo passa,
que o passado e o futuro deixam de existir
quando passam a existir

Volta e meia sinto como se o presente
fosse o passado, pro qual eu tentei e consegui voltar
de tanta saudade
mas a saudade não veio junto
e eu desperdiço o tempo mais uma vez

Volta e meia descubro que a gente tenta enfeitar
embelezar o que é natural e simples
maquiar a vida
dando sentidos que não colam direito
como adesivo velho
E no fundo
a vida não aceita adesivo algum
nem sentido algum

A vida é uma superfície
estendida no meio do nada
ou do tudo
com um punhado de seres
andando
tentando significar seu andar
e falhando

Volta e meia eu vou embora
e em meia volta eu volto
e escrevo um mundo

15 de agosto de 2013

74.

Bluebird, Charles Bukowski

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?

14 de julho de 2013

73.

Sobre o que existe no que não existe.

Tenho sonhado acordada com a não-existência. Você sabe, aquele estado infinito e perfeito em que não se sente ou se é coisa alguma. Pois existem os sentimentos (sensações) bons e os ruins, mas quando se aprofunda demais no segundo o não sentir começa a fazer parte do que é divino.
Temo a morte, sim, mas geralmente anseio pelo que se segue. Eu queria poder pulá-la como se pula corda
e escapa.
Meu paraíso, hoje, é o não sentir. Flutuar vazia no límpido. E não temer nada, e não esperar nada. Não haveria angústia nem coisa alguma a fazer arder o coração, nenhuma tristeza pelo que não se é ou tem, nem pelo que se tem ou é.
No nada tudo é perfeito, no nada a felicidade plena reside. E tantos tolos procurando-a mundo afora! Felicidade é não sentir.

O que vem depois da morte é ser-feliz e,
portanto,
não ser.

72.

Requiem para um mundo

Trombetas mudas
anunciam o apocalipse
e um silêncio gigante
engole a terra
e a macera

Gritos estridentes saem de vozes mudas
mães agarram seus filhos chorosos
pessoas correm nas ruas
mas nada se ouve

Porém alguns
abraçam o caos
e se tornam parte dele
se fazem enorme-silêncio
e por isso entendem tudo
que antes estava escondido