16 de março de 2014
81.
Otávio era um galo que acreditava que seu canto fazia amanhecer,
que as árvores produziam os ventos com o balançar dos galhos e folhas,
que tocar o sino da igreja fazia coisas ruins acontecerem
e que à noite chovia mais forte embaixo dos postes
Todos animais da vila discordavam gargalhando
e apesar de acharem Otávio uma ótima companhia
acreditavam-no ser louco
Até que certa noite ele foi embora
e o dia continuou nascendo
- estava lá a prova de que o sol aparecia independente dele
(os animais, em segredo, respiraram aliviados) -
mas doeu, tempo depois,
pois sem Otávio
os dias não nasciam
tão bonitos
9 de março de 2014
80.
Here are the two most sad things about losing someone you love:
1. It's gonna fucking hurt.
2. You both will move on.
23 de fevereiro de 2014
79.
Eu queria ser a noite:
o céu escuro e misterioso
- escondendo naves espaciais que esperam por algum sinal -
os postes tão certos de não sei o que
o frio cortante.
Eu queria ser a noite:
as poças de água tão silenciosas
os paralelepípedos
os insetos vazios
as casas fechadas.
*
Tem uma estrela no céu bem agora
que vai ficando cada vez mais fraca
ameaçando sumir.
Ela parece estar se esforçando tanto...
Me apaga e te acende, ó estrela
já não quero ficar.
Brilha tranquila
e serei, enfim, a noite.
10 de janeiro de 2014
78.
Sobre o texto Sobre ruas e calendários. Sugiro que leia-o antes de continuar.
Há alguns dias atrás me veio inspiração para continuar a história da personagem Ameli e seu autor. Entretanto, o futuro que revelei a ele sobre a menina era muito triste. Consistia em contar como foi a vida de Ameli depois de ter escolhido qual rua seguir e como, apesar de ter escolhido a rua L'Amar, ela não havia escapado da morte, pelo contrário, havia dado início à lenta morte que era viver na dureza e feiura do real.
A primeira imagem que revelei ao escritor de Ameli foi dela com setenta anos, sentada numa poltrona floral encardida, numa casa empoeirada, óculos empoeirados na mesa, pele enrugada, veias e xícaras com asas quebradas. Depois, todas essas coisas inertes que velavam o corpo de Ameli contaram ao escritor como havia sido a vida dela depois do dia da grande epifania que tivera.
Escrevi. E, na metade da história, resolvi parar por um tempo. Parecia que ela ia ser bem grande e eu não teria condições de escrevê-la toda de uma só vez, em um só dia. Porém, depois de voltar ao que estava fazendo, senti-me muito pesada e triste; a história era poética e bonita em sua melancolia, mas não era o que eu queria para Ameli, mais que isso: não era o que eu queria para mim.
Voltei à página onde havia escrito boa parte da história e comecei a apagá-la. Apaguei a tristeza de Ameli, a aspereza da vida, as pessoas sendo más, o futuro decepcionando, seus sonhos morrendo, a casa empoeirada e velha. Apaguei todos. Nunca existiram, portanto. E no lugar de toda a tristeza escrevi somente uma frase:
Ameli foi muito feliz.
E foi.
O.B.S.: O objetivo desse texto não é dar um final a Ameli, mas contar sobre minha tentativa de fazê-lo. Quero que percebam que não optei por continuar a história de Ameli - a qual ninguém sabe como é nem por onde anda -, mas exercer o poder que tenho como escritora de ficção e deixar de lado a visão pessimista que eu pretendia seguir. Esse texto se rebela e diz: o que aconteceu de verdade pouco importa, até porque não existe verdade nessa história senão o que acreditarmos sê-la.
19 de outubro de 2013
77.
você se engole pra não se vomitar
você chama isso de controle
você perdeu o controle, menina
por algum lugar há de sair
toda essa merda que você não quer mostrar
porque não é bonita
você está confusa, menina
quando você engole pedaços de si mesma
leva junto palavras que caracterizam
o que você não quer admitir que há aí dentro
e quando um pouco disso escapa
você não sabe nomear
tem mais parte tua escondida no baú
que sendo usada
você tá toda guardada
tentando sair
e esse barulho é pra não te deixar esquecer
é tua fraqueza querendo escapar
teu monstro
preso na barriga
grunhindo
abra o baú, menina
ele só quer um abraço
76.
NA SAÍDA
Márcia era recepcionista de uma clínica de psicoterapia. Um dos pequenos prazeres de sua vida era olhar a expressão das pessoas depois de saírem da consulta. Havia essa garota, em específico, que esquecia-se que havia chorado durante boa parte da terapia e quando saia sempre se despedia das pessoas com um sorriso no rosto, porém com os olhos inchados e vermelhos. Márcia se sentia importante ao imaginar que era uma das poucas pessoas que presenciavam aquele raro momento em que o que a menina sentia e o que ela queria aparentar sentir coexistiam estampados em seu rosto, sem que ela nem percebesse. Costumava imaginar, e supor, que a menina sentia tanto que mal conseguia fazer tudo caber ali dentro sem derramar a
tris
te
za
tris
te
za
na
saída.
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histórias
75.
MINHA VOLTA
que o passado e o futuro deixam de existir
quando passam a existir
Volta e meia sinto como se o presente
fosse o passado, pro qual eu tentei e consegui voltar
de tanta saudade
mas a saudade não veio junto
e eu desperdiço o tempo mais uma vez
Volta e meia descubro que a gente tenta enfeitar
embelezar o que é natural e simples
maquiar a vida
dando sentidos que não colam direito
como adesivo velho
E no fundo
a vida não aceita adesivo algum
nem sentido algum
A vida é uma superfície
estendida no meio do nada
ou do tudo
com um punhado de seres
andando
tentando significar seu andar
e falhando
Volta e meia eu vou embora
e em meia volta eu volto
e escrevo um mundo
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