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4 de agosto de 2012

63.

Iconoclastas.

O vento nas palmeiras — posso até ouvir. Forte, inexorável, falante.
O grilo emite o seu sinal: constante, incansavelmente. Nenhuma banda fora antes tão resistente.
Aqui dentro — e falo sempre sobre o aqui-dentro — estava escuro e com a lanterna-azul acesa, até as pessoas aparecerem com o desespero dos iconoclastas e destruírem todas as imagens de beleza que tentava manter na quietude e paz do meu silêncio, da minha escuridão.
Mas o vento continua — balança algo no telhado — e não há nada que o impeça, nem ao grilo, nem aos carros periódicos na rua. Porém a mim a vida opõe-se, sou no íntimo contra as leis do que é real. Este, imutável e  rude, tira-me as luzes apagadas, a ausência de palavras, de movimentos, ações, barulhos e presenças.
E depois de um dia longo e cansativo sendo, lá fora, sob a influencia do patético, tudo o que queria evitar ser hoje (tudo o que evito ser todos os dias) queria poder abrir a porta e ser como uma folha de palmeira livre, levada pelo vento para bem longe daqui. Onde os grilos ainda cantem, o vento ainda fale, os carros ainda passem, mas onde eu possa continuar só e poética e acreditar com toda a fé do mundo que existe um lugar  —  e é aquele — onde eu posso ser o que sou, sem interrupções, sem iconoclastia.

10 de julho de 2012

61.

Circular e constante

E aqui estamos, depois de tantas palavras, de tanto sentimento. O que fez desde a ultima vez?
Olhe ao seu redor. Isso é novo?
Olho ao meu redor e nada é novo.
Arrumei todo o quarto e mudei os moveis de posição, só pra parecer que saí do lugar, que as coisas vão mudar. Não vão.
Achei um calendário propaganda no quarto de visitas, coloquei aqui do lado só pra ter aquela impressão de que espero por um dia marcado em que algo magnifico acontecerá. Não irá.
A mesma velha chuva e o mesmo velho sentimento de estar jogando fora a vida.
Como eu queria acordar amanhã e ter toda a coragem do mundo pra fazer do meu dia algo fantástico e memorável, mas tudo o que tenho cabe no espaço de mim e se chama medo.
Esse é o meu quarto que abrigando tantos pensamentos não abriga quase nenhuma atitude. Quero mudar e tudo o que consigo fazer é trocar os móveis de lugar. E continuar no mesmo lugar.
— Por onde andou?
— Em círculos. E você?

14 de fevereiro de 2012

51.

Pensamentos soltos.

Está chovendo lá fora, na sala um grupo conversa, na rua os carros passam e as pessoas com guarda-chuvas caminham de volta pra casa. Aqui dentro do quarto as luzes estão apagadas, a lanterna ligada. A caneta, o papel e o sentimento.
A chuva está ficando mais fraca, a luz da lanterna prestes a apagar, e não sei ao certo onde esse texto vai dar. Mas me sinto bela, embora sonolentamente triste.
Essa noite só quero deitar, dormir e esperar que ao menos o sonho seja aconchegante.
Um clique e a lanterna se apaga, o caderno é fechado, a caneta é guardada e a porta se fecha.
Vamos pra vida, enquanto a hora de dormir e sonhar não vêm.
Vamos sorrir sorrisos falsos lá fora, vamos chorar lágrimas verdadeiras no travesseiro, vamos fechar os olhos e pedir com fé que algo venha, subitamente, em uma noite chuvosa, enquanto os carros passam e as pessoas com guarda-chuvas caminham de volta pra casa.

1 de fevereiro de 2012

49.

Dentro do quarto. Dentro de mim.

No começo uma luz fraca e titubeante, depois de um tempo não havia mais nada, se apagou.
Não podia mais, no silêncio da casa, desligar as luzes do quarto e ligando sua lanterna passar momentos tristonhos e aconchegantes dizendo frases sobre o que sentia, sobre o que temia, sobre o que tinha e não tinha. Mas agora não podia mais contar com a pequena luz - no fim do túnel? - que não fazia da escuridão inteira.
Outra noite se virou enquanto tentava dormir e notou que ela estava ligada, sem um notório porquê, lá estava a luz. Levantou e apagou, voltou a dormir.
Hoje a casa está quieta, as janelas fechadas e não há luz, a escuridão é inteira aqui dentro do quarto, e me pergunto então como as coisas estão aqui dentro de mim.

9 de janeiro de 2012

45.

Contos de fadas camuflados em supostos sábios conselhos.

Com um impulso se jogou sobre a cama, braços cruzados atrás da cabeça, olhos no teto. Ela costumava ouvir que para tudo havia a hora certa de acontecer, então fechou os olhos e se deixou acreditar.
Não, não culpou ninguém, ela queria crer... Para poder respirar sem todo aquele medo do que estaria pela frente.
E usou por muito tempo aquela linda e brilhante desculpa de que se o que ela desejava não havia acontececido era porque a hora ainda não havia chegado, mas chegaria, “sempre chega, não é mesmo?” ela pensava alto.
Até que em um belo dia acordou e percebeu que nada viria e que, por mais otimista que tentasse ser, era dolorosamente tarde demais para buscar.

31 de outubro de 2011

37.

Quando chorar é melhor que sorrir.

Um espelho de moldura dourada em um quarto com paredes branco neve.
Nada mais. Sem detalhes. É isso que tenho sido desde o dia o qual não sei ao certo.
Me perdi, devo confessar, estou cada vez mais distante do que sou, entretanto, não estou distante do que quero... Não mais do que sempre estive.
Digo, com uma branda sinceridade, que é horrível ser esse espelho e aqui vai um conselho: nunca o seja. Larguei de lado minha bela tristeza e solidão. Certa noite esperei pelas palavras e elas não vieram, procurei as lágrimas e não as achei. No começo cheguei a pensar que talvez aquilo fosse um bom sinal, que as coisas estavam, naturalmente, tomando um rumo mais agradável.
Depois de uns dias queria de volta as minhas palavras tristonhas, meus sentimentos tão belos como uma canção de ninar. Percebi que a vida, do jeito era, não era triste nem feliz, mas vazia e não-bela, disfarçadamente vazia, sem objeções, sem desejos. E aos poucos, sem perceber, vim parar dentro deste espelho.
Quando chega a noite lembro-me que a cada segundo do dia eu estava a ser apenas o reflexo patético das pessoas que passaram por esse quarto com paredes branco neve, e tento todos os dias ser como uma flor simples e bela dentro de um jarro em cima de uma mesa de madeira antiga, lembrando sempre, com olhos úmidos, que a falta d’água ainda irá por deixar-me murcha, mas tendo a certeza de que sou o que sou, linda e tristonha, chafurdada em sonhos...

Eu, uma flor.

4 de agosto de 2011

34.

As cores do meu quarto.

Aprendi que um objeto exposto a uma luz monocromática pode emitir apenas duas cores: o preto e a cor dessa mesma luz. Depois notei que a minha vida é como um quarto com uma luz monocromática emitida pelas pessoas a minha volta, e eu, um simples objeto, aparento ser como os outros que me cercam, não consigo mostrar as minhas cores verdadeiras. Vivo a procura de um lugarzinho no mundo onde cada um possa mostrar quem realmente é, onde as luzes são brancas e permitem que todas as cores sejam expostas. Não quero aparentar ser apenas o reflexo desse mundo patético, eu sou bem mais. Quero mostrar e ver toda a infinidade de cores ao meu redor, todo esse arco-íris. Queria um lugar onde as pessoas não vissem apenas o pior das outras, nem criticassem em noventa por cento do tempo em que estão acordadas. Ai, como eu queria um mundo onde eu pudesse respirar um ar sem toda essa maldade, maldade a qual também é a cor da luz monocromática dessa minha vida, essa maldade que é uma das únicas cores que eu posso exprimir nesse quarto preto e patético, preto e crítico, preto e maldoso, nesse quarto que de todo modo é escuro e não há portas nem janelas que deixem a luz entrar.

7 de junho de 2011

16.

Luzes apagadas.

Não havia ninguém em casa, então ela resolveu começar um daqueles seus momentos que julgava serem belos. Diante do silêncio da casa inerte desligava todas as luzes, colocava a sua atual música preferida e ligava a lanterna, não sei porquê, mas adorava fazer isso, ficava iluminando pequenas partes do quarto, olhando cada detalhe. Se jogava na cama e iluminava o papel colado no teto que dizia: Tudo vai passar. Tudo vai ficar bem. — Ela havia escrito no intuito de se animar nas horas difíceis. Mas acho que o que ela gostava mesmo nisso tudo era apagar todo o resto e se concentrar em uma só coisa, olhar os detalhes, não ter que pensar demais com tantas informações, só queria que tudo fosse — mesmo que por um breve momento — simples e não tão cheio. Depois levantava, aproveitava o refrão, ia cantando e girando pelo quarto com sua luz na mão, iluminando rápido as coisas na parede, os retratos tirados na infância, os ursos, as coisas jogadas pela cama, a cor da parede já antiga, e por fim tinha visto todo o seu quarto, que abrigara tanto de si. E então parava, desligava a lanterna, ligava as luzes, abaixava o som e se ligava pro mundo outra vez, embora preferisse as luzes apagadas.