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21 de fevereiro de 2012

52.

Herança.

Não, meu bem, não chore. Olhe pra mim, me escute:
Vai ser difícil sem mim, eu sei, mas acho que nesse tempo em que passamos juntos você aprendeu comigo e minhas manias esquisitas que a realidade não precisa ser sempre realidade e a fantasia muito menos.
Acorde amanhã e lembre-se de mim (de nós) como um sonho bom que você teve essa madrugada. E depois levante, olhe a barba no espelho como você faz todas as manhãs, tome um banho, ponha a sua roupa favorita e vá viver, depressa. O que você tem nas mãos - e que está se esvaindo da minha agora - é único, não existe nada antes ou depois disso, então aproveite o quanto puder. A vida é o que você faz dela. Faça algo bom da vida, querido.
O segredo da imortalidade é não morrer nos corações, nas mentes e nas palavras de cada geração, eu não consegui ser imortal, mas você pode ser: se tentar bastante. Mesmo quando a fé e a esperança pareçam ter sumido, acredite, nada é mais difícil de ir do que a esperança, ela sempre está lá, procure bem. Seja forte, embora isso não seja possível todos os dias, todas as horas, mas tente. Você não vai conseguir nada se não praticar essa coisa de nome tão pequeno, mas de uma dificuldade considerável: Ten-tar.
Você pode escolher ser imortal, mas não esqueça do mais importante (e sim, clichê): Ser feliz.
Pausou.
Agora preciso ir ser nada em lugar algum, e você precisa ser algo bem aqui - disse estendendo uma mão delgada para acariciar o rosto dele -, bem agora.
Então seja.
E fechou os olhos para a vida abrindo os olhos para o não-ser. E foi, foi ser nada em algum cantinho de lugar algum; sem dores e agora, só agora, sem esperança.

13 de dezembro de 2011

41.

Um lugar onde eu pudesse flutuar.

Cansada de toda essa sujeira, desse vazio de esperança sensata, dessa feiura. Cansada dessas coisas não só encontradas nos cenários, mas principalmente nas pessoas.
Queria mesmo era morar em um lugarzinho no mundo onde houvesse muito verde e pouca tecnologia; onde as pessoas passassem o dia sorrindo, ajudando umas às outras, dançando, cantando; onde nenhuma palavra feia e grosseira fosse dita; onde houvesse muito amor.
Onde pudéssemos fechar os olhos e usar apenas os outros sentidos, por longos minutos, pela eternidade se fossemos capazes. Que a vida fosse só aquilo, como uma garota deitada na grama, olhos fechados, quase flutuando. Só isso, mais nada.

4 de agosto de 2011

33.

Quem me dera ter a paz de uma aranha.

Eu olhava além, até que encontrei algo entre o objeto observado e eu (a observadora). Em uma teia muito interessante e nem um pouco visível estava ela: a aranha. Olhei, com olhos amiudados, aquele inseto minúsculo, e o que antes chamava a minha atenção perdeu a nitidez para dar foco a aranha, tão pequenina. Todo o som e todo o resto do mundo parecia ter sido suavizado. O minusculo inseto aparentava flutuar no ar, mas estava pendurado na sua teia finíssima, quase invisível. Cada pequena brisa que passava por ela a movimentava brandamente, era deleitoso olhar para aquele ser tão pequeno que tentava sobreviver em um mundo imensamente maior e ver que ele ainda conseguia se pendurar e se balançar como uma criança com um sorriso singelo, sem nenhum medo, sem nenhuma expectativa. Queria ser como aquela aranha que não se desesperou diante de coisas tão grandes ou mesmo pequenas, queria, em um mundo tão violento, transmitir a paz a qual ela aparentava ter, a paciência, a simplicidade. Queria eu flutuar como uma aranha e ter a paz precisa para atravessar o dia sem a ameaça constante das feridas de um mundo tão triste.

31 de julho de 2011

29.


Você não precisa ser tão colorida se não quiser, vida. Se prefere ser preta e branca, pelo menos seja poética. Não quero dias toscos e bobos, com palavras, vacilos e atitudes patéticas. Quero o que desse modo — vazio e inerte — é também doce, quero a aparência de um filme de drama, que sendo triste é belo. Pois se ainda não é hora (quem sabe um dia) de ter os meus sonhos realizados, apenas faça dessa espera algo aconchegante, mesmo sendo frio. Não me deixe sorrir demais, vida, quando eu estiver prestes a fazê-lo me mande algumas notícias ruins antes que eu ria como uma boba de coisas patéticas. Quero a ausência dessas pessoas estúpidas e ignorantes, prefiro a solidão do que a presença delas. Isso!, quero solidão, um livro e músicas, só preciso disso, o resto deixa comigo, eu faço da vida uma canção triste, algum prelúdio de Chopin com a presença irrefutável do piano, uma pintura da natureza seca, triste e sozinha, mas nem por isso disforme. Quero a beleza do silêncio, do canto dos pássaros e do balançar das folhas, pois não me importa se os dias são tristes, felizes, ou simplesmente vazios — como de costume —, quero que sejam belos, pois são momentos assim que nunca saem da lembrança, e se por acaso a felicidade não chegar eu terei a beleza para guardar na memória.

23 de junho de 2011

27.

Sem deixar rastros.

Toda noite eu esperava ansiosa pra te encontrar em sonho, me arrumava para que você parasse na região onde eles nasciam e viesse alegrar a minha noite e madrugada, o curto-longo espaço de tempo anterior aos problemas, à realidade, à vida, à manhã que fazia todos se levantarem e encararem seus medos – ou não. Mas assim era; nos encontrávamos toda noite e isso me bastava, vivíamos uma história adorável, até que um dia, eu, arrumada e ansiosa  fechei os olhos pra te ver e você não apareceu, voltei a sonhar com aquelas coisas estúpidas e sem sentido que a minha mente criava quando você não vinha. Você era o melhor de mim e o resto que antes me bastava já não era suficiente. O pior é que eu não podia te obrigar a voltar, eu não podia fazer nada, não há controle sobre o que não é real, um dia tudo simplesmente vai embora, evapora, sem deixar rastros. Não construa seu castelo com tijolos imaginários, um dia você pode se ver sem nada do que criou.

18 de junho de 2011

24.

Consigo mesma.

Se abraçava bem, bem forte. Talvez não tivesse mais ninguém no mundo que nunca desistiria dela daquele modo. Estava sempre ali, sempre, ela consigo mesma. Acalmava-se, desesperava-se, mas sempre dizia: as coisas não são tão ruins assim. E até hoje ninguém sabe se realmente eram ou não, o que se sabe é que as palavras dela pra ela mesma a confortaram. Odiava confessar, mas adorava aquelas mentiras bonitas, aquelas as quais ela não sabia que eram mentiras, afinal, você concorda comigo que tudo é verdade quando acreditamos? Pois então, se ela não se alimentasse daquela ilusão, de que viveria? Morreria de fome, fome de momentos que ela só vivia na imaginação e que adoraria ter na realidade, mas que como não tinha, sonhava, sempre e sempre.

4 de junho de 2011

13.


Ela corria feliz pela grama, podia ver os morros que aparentavam estar pertos, mas estavam longe. Seus cabelos balançavam no mesmo ritmo da sua felicidade. Corria para o seu destino, sim, corria como nunca, e talvez o que estava a sua espera nem fosse tão bom, mas a felicidade estava em correr, correr sem olhar pra trás, porque de tanto andar desanimada e sozinha por caminhos tristes, ela finalmente encontrara o verde, o belo, o simples que ela tanto queria, e corria sem pensar — odiava pensar demais, nunca tivera bons resultados — corria de olhos fechados e seu sorriso quase que não cabia no rosto. Não pensava em desapontamentos, nem em decepções, sentia o vento gélido tocar-lhe a face. No fundo, o único medo era de que o tempo acabasse com a beleza de um sonho realizado.

21 de maio de 2011

10.

A vida é uma piada.

Tem um vazio aqui, e já comi tanto pensando que era fome, bebi bastante pensando que era sede, mas não era fome nem sede, mas sim, fome e sede. Uma fome de qualquer coisa, uma sede de sorrir, gargalhar, abraçar. E era tão grande que eu estava prestes a rasgar todo aquele cenário de idiotas, aquele desenho da multidão que não se fazia presente, aqueles rostos nos bancos sentados, e eu alí, no palco da vida, me movimentando como se estivesse em uma cadeira-de-balanço, pensando no que a vida teria para me dar — teria? tem? — e ainda me balançando na minha cadeira-de-balanço feita de plástico vinho — como era a da minha vó que se foi faz algum tempo — assistindo a vida pela janela, sendo limitada por um vidro chamado comodismo. Bem sei que um dia abro a porta e saio sem me preocupar com penteado ou maquiagem, gritando pra quem quiser ouvir, que a vida é uma piada.

6 de maio de 2011

05.

A viagem.

Sorridente, radiante, ela pegou as malas em cima do guarda-roupa, começou com a sua favorita, uma cor-de-rosa que ganhou da sua tia, abriu-a bem devagar, como se estivesse filmando aquele momento para que fosse lembrado para sempre.

Ela amava começos e odiava finais, mas o que importava era que aquele era o começo, o começo de uma nova vida; em outro lugar, com pessoas diferentes, tudo o que ela sempre quis. Colocava uma a uma de suas melhores roupas na mala cor de rosa, não que rosa fosse a sua cor predileta, apenas achava agradável. Ela nem conseguira dormir direito esperando o sol aparecer. Em algumas horas estava arrumada e ansiosa a espera do taxi que a levaria até o aeroporto. Despedia-se de seus poucos, e não tão presentes, amigos, de sua família da qual sentiria muito falta da sua mãe e da sua tia, abraçou a todos dizendo adeus e recebendo as palavras de sorte que eram desejadas a ela, mas ouvia com sinceridade apenas algumas.

Do taxi olhava a paisagem daquela pequena cidade, que nunca lhe enchera os olhos. A garota sentia o vento frio balançar-lhe os cabelos; e pela primeira vez sentiu ternura por aquele lugar, agora visto de forma tão amável, uma vez que ela não ficaria mais muito tempo por ali. Minutos depois ela havia chegado ao aeroporto, depois de um pouco de espera finalmente estava sentada na poltrona do avião, próxima a janela, como ela queria.

Ainda em terra firme, pensava em todas as coisas que viveu, todas as lágrimas, todo o vazio que no presente momento havia sumido, todos os sonhos, toda a rotina e a dificuldade de acordar a cada manhã, todas as músicas, todas as danças feitas na frente do espelho, todas as vezes em que cantou como se tivesse uma voz linda e como se cantasse para milhões de fãs. Ela riu de tudo isso, achava a vida engraçada e difícil, mais difícil do que engraçada, mas como estava feliz ela ria. Ria das feridas que doem, mas que com o tempo cicatrizam e então nos perguntamos: como eu pude cair desse modo?

Ela estava indo embora, da cidade, do país, da vida que tinha, e até mesmo indo embora da antiga pessoa que era. E sim, isso era o que ela queria! Mas sentada naquela poltrona, olhando pela janela a sua pequena cidade, ela deixou uma lágrima sutil rolar a face. Sentiria falta das coisas simples e chatas, ela sabia que ainda derramaria algumas lágrimas lembrando daquele lugar.

Mas precisava ir, precisava encerrar capítulos e começar outros, ela precisava voar, sonhar outros sonhos. O avião decolou e então ela viu que aquele era o começo, mas ao mesmo tempo o fim, ela sorria e derramava lágrimas, sentia duas coisas diferentes. Mas a garota se lembrou dos momentos bons que vivera, das pessoas boas que conheceu, então ela olhou pela última vez a cidade, de lá do alto, que ficava menor a cada segundo, e então ela sabia que nunca se esqueceria de nada do que viveu ali, mesmo que tudo tenha sido tão morno e monótono, ela sabia que um dia voltaria àquela pequena cidade e diria com os olhos brilhantes:
Nada mudou por aqui.

1 de maio de 2011

01.

01 de maio de 2011

Hoje é um daqueles dias vazios, em que não há nada de bom pra te animar, que você para um pouco e encontra sua vida dividida em dois lados opostos: de um lado os sonhos, as fantasias, os desejos e as ilusões que nós mesmos criamos; do outro a realidade rude, inexorável, insuportavelmente rotineira e sem surpresas, cheia de obrigações e cores próximas ao preto e branco. A fantasia é a esperança, imaginamos um futuro melhor, com mais sonhos virando realidade, e não apenas sonhos que não saem da suposição; a fantasia é pra isso, pra dar um pouquinho de cor à realidade, pra não cairmos, diante de tantos desejos não concretizados. A fantasia é o alimento da esperança, e se o ditado diz que a esperança nunca morre, a fantasia também não.