13 de dezembro de 2011

41.

Um lugar onde eu pudesse flutuar.

Cansada de toda essa sujeira, desse vazio de esperança sensata, dessa feiura. Cansada dessas coisas não só encontradas nos cenários, mas principalmente nas pessoas.
Queria mesmo era morar em um lugarzinho no mundo onde houvesse muito verde e pouca tecnologia; onde as pessoas passassem o dia sorrindo, ajudando umas às outras, dançando, cantando; onde nenhuma palavra feia e grosseira fosse dita; onde houvesse muito amor.
Onde pudéssemos fechar os olhos e usar apenas os outros sentidos, por longos minutos, pela eternidade se fossemos capazes. Que a vida fosse só aquilo, como uma garota deitada na grama, olhos fechados, quase flutuando. Só isso, mais nada.

2 de dezembro de 2011

40.

Nada é tão sólido que o tempo não devore.

Não me faça promessas que envolvam eternidade, meu bem, não sem uma condição. Não diga que vai estar sempre aqui, que o que sente é eterno, mesmo que tenha convicção, o tempo devora, ouvi dizer. Cada lindo sentimento, cada lindo desejo. Amanhã pode ser que nada disso esteja aqui, mesmo que hoje tudo pareça tão sólido, tão incorruptível.

20 de novembro de 2011

39.

Apenas o que é recíproco.
Hoje sonhei que amava alguém que amava um outro alguém e senti uma dor-fictícia, não aguda, mas arrebatadora, que tirava a vontade de qualquer-coisa.
A minha sorte é que, quando atravesso a linha tênue que divide o sonho da realidade, o meu coração não é masoquista e se obriga a pôr pra fora tudo o que não é recíproco.
E pela primeira vez a realidade tinha algo melhor a oferecer.

38.


A rua estava molhada pela recente chuva e a noite estava fria e escura. Ela estava andando pela calçada do caminho quase vazio, com seus amigos igualmente silenciosos, aproveitando a música invisível do silêncio. A única coisa que podiam ouvir era o som dos próprios passos.
Elena acendeu um cigarro e voltou a guardar o isqueiro no bolso da sua jaqueta. Ela tinha os cabelos longos e castanhos que, por hora, escondiam partes do seu rosto níveo.
Fechou os olhos e lentamente expirou a fumaça do cigarro. Se sentia entorpecida, como se não só a rua estivesse quase vazia, mas também ela.
Elena era uma garota aparentemente forte e inabalável, mas tinha o amor como seu ponto fraco, por isso se mantinha longe dos sentimentos, não suportava a ideia de ter a felicidade nas mãos de um outro alguém e por isso escolheu simplesmente não tê-la.
Ela tinha a incrível habilidade de nunca deixar nada transparecer, mas sentia que o amor a tornaria fraca e incapaz de manter tudo dentro de si, fechada como achava que era seguro ser.
O que ela não sabia era que não poderia fugir do amor, ele a encontraria e por algum tempo a faria muito feliz, até ter dela tanto desejo quanto medo, medo de perder, medo de ser magoada. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde a felicidade daria lugar a dor. E esse seria o seu fim.

31 de outubro de 2011

37.

Quando chorar é melhor que sorrir.

Um espelho de moldura dourada em um quarto com paredes branco neve.
Nada mais. Sem detalhes. É isso que tenho sido desde o dia o qual não sei ao certo.
Me perdi, devo confessar, estou cada vez mais distante do que sou, entretanto, não estou distante do que quero... Não mais do que sempre estive.
Digo, com uma branda sinceridade, que é horrível ser esse espelho e aqui vai um conselho: nunca o seja. Larguei de lado minha bela tristeza e solidão. Certa noite esperei pelas palavras e elas não vieram, procurei as lágrimas e não as achei. No começo cheguei a pensar que talvez aquilo fosse um bom sinal, que as coisas estavam, naturalmente, tomando um rumo mais agradável.
Depois de uns dias queria de volta as minhas palavras tristonhas, meus sentimentos tão belos como uma canção de ninar. Percebi que a vida, do jeito era, não era triste nem feliz, mas vazia e não-bela, disfarçadamente vazia, sem objeções, sem desejos. E aos poucos, sem perceber, vim parar dentro deste espelho.
Quando chega a noite lembro-me que a cada segundo do dia eu estava a ser apenas o reflexo patético das pessoas que passaram por esse quarto com paredes branco neve, e tento todos os dias ser como uma flor simples e bela dentro de um jarro em cima de uma mesa de madeira antiga, lembrando sempre, com olhos úmidos, que a falta d’água ainda irá por deixar-me murcha, mas tendo a certeza de que sou o que sou, linda e tristonha, chafurdada em sonhos...

Eu, uma flor.

23 de setembro de 2011

36.

A pipa laranja.

O céu acima da minha cabeça estava inundado em núvens, mas a vista de longe era limpa. O dia estava lilás e frio e o mar era de um verde escuro, escondendo tudo o que nele vivia.
Não haveria ninguém na praia aquela tarde não fossem alguns garotos que corriam pela areia empinando uma pipa. Logo passaram por mim, sorridentes e radiantes como se nada mais importasse a não ser o pequeno papel colorido dançando por
entre as nuvens que avisavam sobre a chuva.
Eu continuava estática em frente ao oceano, o vento levando meus cabelos para longe, dançando com a pipa e as ondas do mar.
Os meus olhos se fecharam e o meu sorriso se abriu. Eu ouvia apenas o barulho do mar e da risada das crianças que tentavam, no céu escuro daquela tarde, desenhar lindos sonhos com uma pipa laranja.

1 de setembro de 2011

35.

Serenata.
Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.
Cecília Meireles.